sábado, agosto 02, 2014
Catarina
Catarina andava por aí vestida de sol pois mesmo na sua inocência de se achar apenas mais uma a percorrer a estrada, sabia que conduzia o mundo em suas mãos.
E isto não era por beleza e nem por dom, é que nela existia a magia oculta daquela fruta-flor recém colhida do pé que há dois dias não passava de um aglomerado de pétalas de um rosa pálido quase branco, mas que agora se apresentava vermelha, rubra e fresca com todos os cheiros solares que sua árvore mãe recebeu para concebê-la.
Transmutada pela força da natureza fazia-se assim, poente em mim, menino e imaturo com o pomo cheio de sabor nas mãos, descobrindo em cada pedaço sorvido entre os lábios o milagre que se revela numa flor que se fez fruta, apenas para saber que a evolução é essa semente ininterrupta de transformar-se de uma promessa para uma realidade cheia de sentidos. Semeávamos mesmo sem saber, um novo mundo em nós a cada arrepio-flor e cada fruta-beijo que colhíamos um no outro e acordávamos sabendo que o amor nada mais é que essa seara que reluz a ouro quando a luz da estrela maior toca os trigos, a matéria- prima do pão que servirá de alimento para todas as gerações, incluindo a minha, meu próprio legado mesmo que ainda não concebido estava naquela visão, naquele pão ainda não produzido, que dependia apenas das mãos de minha fruta-flor para ser moldado e chegar-me aos lábios nutrindo toda minha fé na vida.
segunda-feira, julho 07, 2014
A casa.
Porque às vezes não consigo. Ouço não para aprender a dizer sim.
Arrasto. A vida a circunstâncias, o tênis na brita e meu coração pelas ruas.
E nem sempre dá para esconder. Abafo o terreno em obras.
Mas as batidas do martelo acordam toda vizinhança e eu procuro vigas em que me sustentar
Tremo por não ser concreto.
Quero a paciência do artesão e não a eficácia do mestre de obras
Esculpir-me. Desculpar-me. Perdoar-me.
Sempre é a parte que tem mais entulho pra por no caminhão da mudança interna.
Falta acabamento. Falta acabar-me
Falta cor na vida e nos olhos. Faltam presenças pigmentadas
A alegria só vem depois de profunda terras levantadas com pás de caminhão
Pra tirar minha alma lá debaixo, que ficou afundada na reviravolta em que me enfiei
Escavo. Várias horas todos os dias. Até respirar.
E tentar drenar com canos pros olhos a mágoa
E aos poucos deixar de ser a casa em eterna ruína.
segunda-feira, junho 16, 2014
razão das razões 2
Deus não te fez mais bonito porque as estrelas padeceriam de ciúmes. E os mortais estariam todos condenados a não ter mais pontos de luz para enumerar todas as suas ilusões.
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