quarta-feira, maio 05, 2010

Serpentes.


Eu tenho uma natureza orgulhosa.Orgulhosamente fechada.E um não sei que de tristeza vem sempre me invadindo quando menos espero.Me abraço a ela.Crio um apego de mãe pela cria,porque imploro por sentir algo.E quando menos espero estou eu e ela unha em carne,num entrelaçamento sensual que sequer sou capaz de distinguir ela de mim.como duas serpentes mordendo a mesma maçã de eva permaneço por horas nesse quadro apático e frio que nem mesmo o calor da manhã e do dia que amanhece inteiro entre carros palavras e passos faz dissipá-lo.
Você ainda está em mim.

(A.C.Silva)







 É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

(jorge luís borges)

sábado, abril 24, 2010

só pode ser poesia



Deus eu não sei o que faço de mim
Não sei o que faço com as noites em claro
Não sei o que faço com meu sangue que corre ao contrario
Não sei o que faço com meus esquecidos horários
Não sei o que faço com as minhas preces
Não sei o que faço com minhas vestes
Não sei o que faço da minha necessidade
Não sei o que faço com minha pouca idade
Não sei o que faço com meus eixos desalinhados
Não sei o que faço com meus pontos perdidos e alinhavados
Não sei o que faço pra achar um novo começo
Não sei o que faço para criar um novo fim
Deus eu não sei o que faço de mim.






*talvez ninguém saiba

*e o que eu sinto só pode ser poesia.