Carissímo.
Com o orvalho da madrugada sobre as folhas marrons e verdes ao chão pude me lembrar com exatidão do teu rosto.Talvez a minha vida seja sempre uma eterna tentativa de metaforziar tudo.Mas sem dúvida nessa imagem que te descrevo floresce você.A água que pousa na folha ao cair da noite e só ainda está pela manhã porque não pode secar.O desmazelo e a bagunça desordenada com a qual as folhas se posicionam ao chão e nos galhos.A sensação de frio que o orvalho passa e aqueles pequenos pedaços verdes chorando lágrimas que antes não lhe perteciam.Esse retrato não é humano.Esse retrato é todo teu.
Assim deveríamos ser,como árvores que deixam suas folhas plumando pelo vento e que não tenta se enquadrar em nada.Apenas seguem o seu curso.Não tenta se encaixar no que é bom e somente da folhas e frutos seguindo sua natureza.Árvores diferentes dão frutos diferentes concordas?Parece-me óbvio.Somos árvores.Diferentes.Não entendo então a tentativa de outras árvores dizerem como devemos conceber os nossos frutos.Esta é a afável arte de julgar.Uma violação portanto, afinal crês que uma cerejeira um dia se sinta obrigada a gerar morangos?
Minha árvore de sandâlo ainda que finquem machados em ti exalas um perfume tão suave.Compreender porque orvalhas tanto e com tanta dor e também porque cismas em deixar cair tuas folhas em plena primavera é entender um pouco de mim mesma.Pois sou rosa sem espinho e um vaso de planta liberto.Estou fixa mas plumejo folhas por aí.Voam longe.Até tocar teus ombros.
Hei de arder sozinha,como brasa remanescente de uma fogueira festiva jogada a um canto de areia, com restos de cinza e um que inéxplicável de maresia e solidão.Que fiquem com suas doutrinas nobrezas gentilezas risos alcóolicos forjados e seus sentimentos nobres de almas limpas e corretas.Eu quero a sujeira o ópio, a larica do drogado a sífilis da prostituta falida.O resto que ninguém quer e que eu valorizo.A sucata desgastada e esquecida daquilo que um dia foi útil e bom.As flores.Que sejam murchas.Ainda são flores ainda que sem água e sem cor sem vida.Quero a nobreza de quem come lixo e ainda diz.obrigada.Sou inútil aos olhos do mundo, e uma deusa aos olhos do meu próprio destino que depende das minhas escolhas.Não quero a rosa.Quero a urtiga.Que me faz reagir ficar vermelha me incomodar.Não quero odores agradáveisnão são eles que nos fazem banharmo-nos de água e nos renovar.Eu nado no lodo procurando a lótus.Eu me jogo no poço procurando a água.Eu me enveno de sonhos procurando a calma.