quarta-feira, março 18, 2009

O bom (ou apenas a afável arte de julgar)


Carissímo.




Com o orvalho da madrugada sobre as folhas marrons e verdes ao chão pude me lembrar com exatidão do teu rosto.Talvez a minha vida seja sempre uma eterna tentativa de metaforziar tudo.Mas sem dúvida nessa imagem que te descrevo floresce você.A água que pousa na folha ao cair da noite e só ainda está pela manhã porque não pode secar.O desmazelo e a bagunça desordenada com a qual as folhas se posicionam ao chão e nos galhos.A sensação de frio que o orvalho passa e aqueles pequenos pedaços verdes chorando lágrimas que antes não lhe perteciam.Esse retrato não é humano.Esse retrato é todo teu.
Assim deveríamos ser,como árvores que deixam suas folhas plumando pelo vento e que não tenta se enquadrar em nada.Apenas seguem o seu curso.Não tenta se encaixar no que é bom e somente da folhas e frutos seguindo sua natureza.Árvores diferentes dão frutos diferentes concordas?Parece-me óbvio.Somos árvores.Diferentes.Não entendo então a tentativa de outras árvores dizerem como devemos conceber os nossos frutos.Esta é a afável arte de julgar.Uma violação portanto, afinal crês que uma cerejeira um dia se sinta obrigada a gerar morangos?
Minha árvore de sandâlo ainda que finquem machados em ti exalas um perfume tão suave.Compreender porque orvalhas tanto e com tanta dor e também porque cismas em deixar cair tuas folhas em plena primavera é entender um pouco de mim mesma.Pois sou rosa sem espinho e um vaso de planta liberto.Estou fixa mas plumejo folhas por aí.Voam longe.Até tocar teus ombros.

terça-feira, março 10, 2009

Desquereres.

Hei de arder sozinha,como brasa remanescente de uma fogueira festiva jogada a um canto de areia, com restos de cinza e um que inéxplicável de maresia e solidão.Que fiquem com suas doutrinas nobrezas gentilezas risos alcóolicos forjados e seus sentimentos nobres de almas limpas e corretas.Eu quero a sujeira o ópio, a larica do drogado a sífilis da prostituta falida.O resto que ninguém quer e que eu valorizo.A sucata desgastada e esquecida daquilo que um dia foi útil e bom.As flores.Que sejam murchas.Ainda são flores ainda que sem água e sem cor sem vida.Quero a nobreza de quem come lixo e ainda diz.obrigada.Sou inútil aos olhos do mundo, e uma deusa aos olhos do meu próprio destino que depende das minhas escolhas.Não quero a rosa.Quero a urtiga.Que me faz reagir ficar vermelha me incomodar.Não quero odores agradáveisnão são eles que nos fazem banharmo-nos de água e nos renovar.Eu nado no lodo procurando a lótus.Eu me jogo no poço procurando a água.Eu me enveno de sonhos procurando a calma.

terça-feira, março 03, 2009

Insetos.

Formigas são conhecidas por serem extremamente esforçadas,trabalhadoras e pragmáticas.Enfim.São insetos não sei porque exatamente um ser humano seguiria este padrão de organização social.Basta pensar que as formigas usam umas as outras de ponte para chegar ao tão sonhado açúcar.E geralmente essas que são usadas como ponte já estão mortas afogadas naqueles mimosos pires com água que as vezes colocamos para impedir justamente isso.
Não só parece.É meio estranho pensar num ser humano fazendo cadáveres de ponte para conseguir comida.Em meios primitivos talvez essa sensação diminuísse, mas em condições de paz social biológica e derivados é óbvio que esse tipo de coisa é abominável embora estejamos sempre sendo insetivados a pisar uns nos outros em condições naturais, onde você não precisa submergir ninguém para emergir.E ainda assim o fazemos.
Não sou nada pragmática.Ponto.